Elói Zanetti

Elói Zanetti

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QUARTA-FEIRA, 05/09/2012

Imaginação, criatividade e inovação

De vez em quando, algumas palavras entram no vocabulário corporativo, ganham força e correm à boca solta. É o caso de expressões como paradigma, escopo e sustentabilidade. Algumas, genéricas demais para dar precisão sobre os seus significados, são muito faladas e pouco compreendidas.
Nos últimos tempos, entrou em voga o termo “inovação”, assunto obrigatório em publicações de negócios, palestras e planos de governo. E como tudo que vira moda traz consigo várias paternidades, a definição correta do conceito, apesar do termo existir desde que o mundo é mundo, ainda é imprecisa. Cada autor que lida com o assunto dá um significado.


Muitas vezes, a melhor maneira de entender uma palavra é ir direto ao seu contexto e procurar a correlação e os significados entre outras do mesmo universo. Unidas, uma ajuda a compreender a função da outra.


Vamos lá: não existe inovação sem que primeiro se passe pelo processo da criatividade e a este precede a imaginação. Por exemplo, a inovação é um atributo da empresa, ela acontece quando se impõem processos e sistemas. Para inovar a empresa, é preciso perguntar-se: “Temos dinheiro para fazer isto? Quem serão os parceiros estratégicos? Foram feitos estudos de mercado e planos de negócio?” Já a criatividade é atributo pessoal do funcionário. Ele tanto pode oferecer boas ideias trabalhando sozinho quanto em equipe, por meio de brainstorming. O grande erro da empresa é tentar colocar o processo criativo numa formatação, enquadrando-o em métodos e procedimentos organizados.


Criatividade é assim: quanto mais desorganizada, melhor. Ela nunca marcará hora ou lugar para se apresentar. Prefere aparecer como uma erva daninha, bela e saudável, em um jardim bem cuidado. Estigmatizá-la ou arrancá-la pode não ser uma boa ideia. Por isso, se você quiser inovação, estimule a criatividade.


A inovação acontece em três passos. Vimos o segundo; agora vamos ao primeiro, que é a imaginação, pois sem ela não há criatividade, nem inovação. É a fase do sonhar acordado, flanar, deixar-se levar pelos pensamentos e ficar à toa remoendo ideias. É o tempo de desligar-se de tudo, da televisão, dos computadores, das conversas e ir aonde a nossa cabeça mandar. De todas as fases, a imaginação, na minha opinião, é a mais importante e a mais prejudicada pelo nosso sistema hodierno de viver. Estamos tão conectados, ligados a coisas desnecessárias e policiados pela família, empresa e vizinhos que ficar sem fazer nada pode parecer crime. A imaginação precisa de tempo e de amplo espaço em nossa cabeça. Deve ser por isso que Einstein, um cara que sabia das coisas, disse, mostrando a língua: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento.”


Vamos a um exemplo prático: nos últimos anos a maioria dos aviões tem saído com um novo componente aerodinâmico – uma aba vertical ou inclinada na ponta da asa, o winglet. A peça tem a função de diminuir barulhos, trepidações e aumentar a sustentação. Também melhora a eficiência do voo, aumentando a velocidade e a economia de combustível.


Muitos podem pensar que essa inovação foi criada em sofisticados laboratórios de pesquisa. Na sua fase final, sim, mas antes ela passou pelo processo da imaginação. Seu inventor gostava de observar o voo dos pássaros e eles usam do artifício de curvar as pontas das asas para planar melhor. Ora, o avião existe há quase cem anos e só agora essa inovação apareceu? É que alguém se deu ao trabalho, em completo estado de imaginação, de ficar observando urubus voarem.


Platão dizia que “as palavras dizem o que são”. Mas em alguns casos precisamos de um esforço extra para entendê-las melhor. Já está na hora de colocar nos programas das escolas de negócios o assunto “compreensão das palavras do mundo corporativo”. Os jovens estão falando coisas que não sabem o que significam, ou estou enganado e quem não está entendendo nada sou eu?

 

TERçA-FEIRA, 24/07/2012

Contabilizar vendas e não a satisfação dos clientes

Conheço uma loja que é líder em venda de móveis e campeã em casos levados ao Procon e ao Juizado de Pequenas Causas. Apesar da lambança corporativa, continua vendendo muito porque o mercado está aquecido e a classe popular crescendo cada vez mais. Seu proprietário não dá a mínima para a satisfação dos seus clientes, a ele só interessa vender uma só vez. Capturado o cliente, cerca-o de mimos e agrados até fazer a venda, depois, em total descaso, finge que reclamações não são com ele. Podemos dizer que nem todas as lojas se comportam desta maneira e que esse caso, apesar de real, é um exagero.


Não tenho a certeza, mas observando como as coisas andam no mundo comercial, parece que todas as conquistas do povo brasileiro nesses anos de existência do Código de Defesa do Consumidor estão indo para o ralo. Com o mercado aquecido, a perda de clientes não incomoda mais ninguém, pois a toda hora são substituídos por novos e ávidos compradores. Para estes, ainda não interessa a qualidade dos serviços e da assistência, mas sim a posse do produto. 


Por causa disso, estamos sendo destratados pelas companhias aéreas, jogados às traças pelas telefônicas, feitos de bobos pelos bancos e cartões de crédito e transitamos por estradas pedagiadas de alto custo e péssimas condições. Mesmo que quisessem, os organismos oficiais que regulam estes setores não conseguem fazer a contento suas obrigações. As reclamações são tantas que eles não dão conta do trabalho. Resignados, como sempre fomos, saímos da era do “brasileiro, profissão esperança” para a do “brasileiro, profissão explorado”.


Ultimamente, o uso dos serviços que atendem ao mercado de massa ficou difícil. Muitos estão desistindo de sair de casa e pegar estrada nos feriados e só viajam de avião em caso de premente necessidade. A responsabilidade não é do mercado que cresceu; todos têm direito ao consumo. A culpa é da falta de infra-estrutura aeroportuária que sempre foi relegada ao descaso e da cumplicidade consentida das empresas que nos atendem.


Se alguém tenta sair de um plano de telefonia - uma armadilha que lhe colocaram no caminho - perceberá que quanto mais se debater mais preso ficará à rede. É permitido entrar; sair, nem pensar. O usuário vai se incomodar e perder tanto tempo em esperas e justificativas que já está achando melhor não mexer em nada e se contentar com contas mal explicadas. “O seu caso estará sendo analisado pelo departamento competente”, é a resposta mais utilizada. Já não nos resta nem mais o uso da expressão “vá se queixar ao bispo”, comum no período colonial; na época, era o único caminho para noivas abandonadas apresentarem as suas queixas.


Palavras como qualidade, imagem, reputação e governança corporativa, de tanto usadas como atrativos de vendas já não dizem mais nada. O vazio das promoções acabou com os seus conceitos. Diretores de venda e gerentes comerciais fazem planos de carreira em módulos de três ou quatro anos - tempo em que ficam em um emprego. E para mostrar competência esfolam seus vendedores e clientes tirando deles o máximo de resultado possível. Eles não se importam com o rescaldo das suas ações predadoras, pois o interessante é contabilizar vendas e oferecer resultados imediatos aos acionistas, os quais, por sua vez, venderão a empresa e todo o seu passivo de mau atendimento, ao perceberem que ela chegou a uma fase ruim. A regra do novo jogo é esta: exploração desenfreada, saque explícito e falta de cidadania. Para muitos, melhor impossível.


Eloi Zanetti

SEGUNDA-FEIRA, 11/06/2012

Uma cidade contra sua vocação

Em 1983, o jornalista Reynaldo Jardim publicou na Folha de São Paulo um artigo com o título “Uma cidade contra sua vocação”. Falava sobre a timidez congênita do curitibano e a sua incapacidade de acompanhar a criatividade urbana que se iniciava na obra de Jaime Lerner. Escrevia ele: “uma cidade composta por seres soturnos, insulados em seus casulos egocêntricos, [...] cercada de montanhas com uma nuvem cinzenta pairando sobre a cabeça de uma burguesia que se acomoda e não se incomoda a não ser com seus próprios umbigos.” Há três anos, pouco antes da sua morte, conversei com ele sobre o que escrevera e ele me disse: “Elói, esqueça, era outro contexto.” Jardim, não dá para esquecer, você acertou na mosca, nossa cidade era assim mesmo e por causa disso perdemos um tempo precioso. A criatividade gerada nas pranchetas dos arquitetos e urbanistas do competente Ippuc da época não foi acompanhada por contrapartidas e esforços da população, artistas e produtores culturais. No livro “A ascensão da classe criativa”, Richard Florida, um estudioso do assunto, fala: “As tendências criativas geográficas não favorecem as comunidades à moda antiga.”


Éramos conservadores, tímidos, desconfiados e profundamente arraigados às nossas origens imigrantes. Nossos antepassados vieram para fazer a América e não para fazer cultura. Somos bons instrumentistas e nada compositores, bons protagonistas no palco, mas não autores. Bons editores gráficos, mas poucos escrevinhadores. Comportamentos que não nos deixaram aproveitar o movimento gerado pelas mudanças estruturais e inovadoras pelas quais a cidade passou – na época, exemplos para o mundo. E, mesmo provocado pela criação de vários estímulos como a construção de teatros, museus, praças e espaços para produção, o curitibano demorou muito para se mexer. Continuamos como sempre fomos: importadores e não produtores de cultura. Grupos de outros estados fizeram a festa em nossos espaços porque a parca criação local foi tímida e sem maiores ousadias. No ranking da economia e da criatividade brasileira, ocupamos o quinto lugar em desenvolvimento econômico e o modesto décimo segundo em criatividade.


Os tempos mudaram e hoje se percebe que há algo de novo no ar, os filhos e netos dos “soturnos e insulados curitibanos”, como o Jardim nos alcunhara, miscigenados com os neo-curitibanos, aparecem como a segunda oportunidade para a nossa cidade. São jovens com espírito e experiência cosmopolita, insatisfeitos e transformadores. Não dão a mínima para suas ascendências e raízes e se esforçam para colocar para fora suas ideias criativas, realizando negócios inovadores em novos formatos cooperativos como os grupos Aldeia Coworking e HUB. Encontram-se em redes sociais e criam movimentos como o Réveillon fora de época na praça da Espanha e o carnaval antecipado dos Garibaldis e Sacis, e reúnem-se em eventos comunitários, só deles, como o Pecha Kucha, uma espécie de contação de experiências e realizações, onde desfilam suas façanhas criativas para centenas de outros igualmente imantados pela avidez da criatividade, da inovação e da ação.


Na área musical, a cidade desponta talentos de todos os gêneros, inclusive com um pessoal pesquisando sério a música de raiz.  É notória a competência destes jovens nas expertises da tecnologia, dos games eletrônicos e dos serviços de TI. Vez por outra, ouvimos falar de tribos como os geeks, os novos nerds e outras cujo nome sequer sabemos pronunciar. Movimentos subterrâneos em verdadeira revolução silenciosa começam a sacudir a taciturna Curitiba. Cabe a nós, mais velhos, identificar e apoiar. Se deixarmos escapar esta segunda chance talvez não exista outra tão cedo e enterraremos de vez a promessa daquilo que deveríamos ser e não fomos. E viveremos até o final dos nossos dias em uma nostálgica e melancólica lembrança de “ter vivido uma era perdida.”

 

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