Naquela noite, em que duas pessoas morreram, Carli Filho jantou em um restaurante no Bigorrilho, acompanhado de sete pessoas, divididas em duas mesas. Ele se recusou a ir para casa de carona com amigos e chegou a discutir com os familiares negando que estivesse sem condições de dirigir o carro.
Uma das testemunhas, que não quis se identificar, afirma ter visto o deputado visivelmente embriagado. Segundo o depoimento, Ribas Carli chegou a cair na calçada, em frente ao estacionamento onde estava o carro Passat, envolvido no acidente.
Outra testemunha garante ter presenciado o estado de embriaguez do deputado. O homem, que também não quis revelar o nome, afirmou que Ribas Carli teria saído do restaurante, furado uma preferencial, ignorado um sinal vermelho e ainda fugido dos amigos que foram atrás dele tentando acalmá-lo.
Das quatro pessoas ouvidas pela reportagem da CBN que testemunharam a embriaguez do deputado Fernando Ribas Carli Filho, nenhuma foi chamada pela polícia para depor até agora.
Segundo informações, só na mesa em que o deputado jantou, com um casal de amigos, foram servidas quatro garrafas de vinho. O dono do restaurante não confirma. Disse apenas que forneceu a conta da mesa à polícia, prestou o depoimento e não vai dar nenhuma declaração à imprensa.
Além do dono do restaurante onde o deputado jantou, dois garçons e duas garçonetes já prestaram depoimento. As imagens do circuito interno do estabelecimento vão ser entregues à polícia nos próximos dias. Mas ainda não foram solicitadas as gravações das câmeras do estacionamento, onde o deputado teria caído embriagado, segundo a testemunha.
A reportagem da CBN tentou o contato com a família do deputado. O tio, Plauto Miró, também deputado estadual, estava presente no jantar. O pai, Fernando Ribas Carli, que é prefeito de Guarapuava, está em São Paulo. Nenhum dos dois atendeu o telefone hoje de manhã.
Depois do acidente, não foram feitos exames toxicológicos nem de dosagem alcoólica no deputado. Ele foi levado com urgência para o Hospital Evangélico. Então, uma amostra de sangue foi retirada. Segundo a diretoria do hospital, o procedimento é de rotina, para que seja identificado o tipo sanguíneo. Porém, essa amostra é descartada e não pode mais ser usada para um eventual exame posterior.
Segundo a Secretaria de Segurança, os exames foram solicitados pela polícia. Porém, no mínimo, 40 horas depois do acidente. Até o fim da tarde de sexta-feira, os médicos ainda não tinham recebido esse pedido.
O delegado responsável pelo caso, Armando Braga Neto, da Delegacia de Delitos de Trânsito, foi impedido de dar entrevistas. A polícia não divulgou a velocidade do carro que o deputado dirigia no momento da batida, apesar de ter recebido as imagens dos radares e do posto de gasolina próximos ao local do acidente. No inquérito policial, constam ainda os depoimentos de duas testemunhas do acidente e dos policiais e bombeiros que atenderam o local e socorreram as vítimas.
O delegado concluiu o inquérito e encaminhou as informações para o Tribunal de Justiça do Paraná, já que o deputado tem direito a foro privilegiado. No fim da tarde desta terça-feira, o desembargador Miguel Thomaz Pessoa Filho foi designado para acompanhar o caso, ao lado do Ministério Público. O promotor de Justiça Rodrigo Chemim Guimarães informou que vai pedir ainda outras informações à polícia, que não constam no inquérito. Ele disse ainda que faltam alguns documentos periciais e o depoimento de outras testemunhas.
Ninguém quer falar sobre esse caso. O delegado Armando Braga, o promotor Rodrigo Chemim, o desembargador Miguel Thomaz Pessoa Filho, o dono do restaurante onde jantou o deputado Carli Filho não querem dar entrevistas. Nem o Detran explicou, até agora, como o deputado dirigia com a carteira de motorista cassada desde julho do ano passado. Fernando Ribas Carli Filho já recebeu 30 multas, sendo 23 por excesso de velocidade. Seis delas foram num raio de dois quilômetros do local do acidente, nas esquinas da Paulo Gorski com a Monsenhor Ivo Zanlorenzi, a Rápida do Campo Comprido, sentido Centro.
O restaurante onde Carli Filho jantou fica a aproximadamente sete quilômetros dali. Como o deputado Fernando Ribas Carli Filho saiu do restaurante uma hora e meia antes do momento da batida, fica reforçada a hipótese de que ele tenha ido para casa, já que mora quatro quadras antes.
O acidente ocorreu na madrugada de quarta para quinta-feira da semana passada. Na batida, dois jovens morreram na hora, Gilmar Rafael Yared, de 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, de 20. O deputado ficou gravemente ferido, teve traumatismo craniano, permaneceu em coma, internado em Curitiba durante três dias. No domingo, foi transferido para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo o boletim médico, o deputado foi levado para a Unidade de Tratamento Semi-Intensiva, podendo receber visitas. Ele está consciente e respira sem aparelhos. Os médicos aguardam uma melhora no quadro do deputado para poder realizar as cirurgias de correção das fraturas na face.