|
Produção acadêmica
Da Redação - 22/02/2008
Um psicólogo, grande amigo meu, quer ingressar em um programa de doutorado acadêmico em uma universidade pública no estado de São Paulo. Pública, pois em uma particular ele precisaria arcar com uma mensalidade de aproximadamente 1000 reais durante 4 anos. Para isso, precisa apresentar um currículo recheado de artigos, publicações e pesquisas que tenham sido publicadas em revistas científicas. Esses artigos são importantes, valem pontos. Quanto mais científicos e reconhecidos no meio acadêmico, mais aumentam a possibilidade de se tornar aluno do doutorado. O problema é que ele escreve textos em jornais populares com dicas para que as pessoas possam tornar a vida melhor. Mas não valem pontos. Escreve artigos em revistas comuns com orientações que melhoram as relações que as pessoas constroem umas com as outras. Ele também dá entrevistas em rádios que pessoas da classe D e E ouvem. Os pobres ouvem. Ouvem e colocam em prática, segundo depoimentos que ele recebe espontaneamente de pessoas simples. Uma senhora lhe disse que as dicas que ele deu num desses programas salvou a vida da neta, pois a família entendeu a seriedade do problema debatido no programa e a levou ao posto de saúde ao invés de medicá-la como estavam fazendo. A função social do trabalho que ele realiza é evidente. Essas ações não têm valor “científico” e a pontuação é mínima no currículo de meu amigo. Ele tem poucas chances de entrar no doutorado. Conheço outro sujeito, que já é aluno do doutorado. Ele acabou de entrar no sistema. É um calouro, recém aceito, recém avaliado. Ele já publicou seus artigos em algumas revistas associadas a universidades. A pontuação dele é muito admirada pelos professores universitários. Seus artigos são escritos para seus colegas professores. Ninguém mais os entende, pois apresenta uma série de detalhes técnicos internos e hermeticamente fechados nas especificidades teóricas que ele estuda. Nunca ouvi alguém dizer que entendeu seus artigos. Nunca vi ninguém aproveitar seus textos para melhorar a vida do ser humano na Terra. A universidade o valoriza. A academia fica feliz com o desempenho dele. Ninguém mais. Os poucos professores universitários que quebram essa tradição umbigocentrista e passam a divulgar em linguagem simples seus trabalhos, que debatem temas relevantes à vida nos meios de comunicação, que dão palestras em congressos mais “populares” são considerados superficiais. São os “professores pop”, são aqueles que a “academia” vai olhar com a empáfia do saber encastelado. Que saber acadêmico é esse que não transforma? Que crime é esse de levar o conhecimento ao povo? Dizer “Sistema interdependente incorporado por instrumento físico inflexível pontiagudo e multi-arranjo de fibras trançadas em dimensão longitudinal com funções de integração de partes separadas” para dizer “agulha e linha” deixa de ser apenas piada e passa a ser desperdício de dinheiro público. Acho que meu amigo vai continuar fora. Marcos Meier é Mestre em Educação, Psicólogo e Palestrante. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br |