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04/12/07 O porteiro do meu prédio
Da Redação - 04/12/2007
Quando a inteligência burra substitui a ignorância inteligente “Seu” Inácio era o porteiro do nosso prédio. 15 andares, 60 apartamentos. 60 famílias. Era muita gente entrando e saindo a toda hora. Seu Inácio era um sujeito todo prestativo, carinhoso, atencioso e de uma alegria tão grande que dava inveja. Santa inveja. Quando a gente chegava em casa com as compras de supermercado, lá ia ele correndo ajudar a colocar tudo no elevador. Quando a gente levantava de manhã cedinho logo vinha um “bom dia!” alto, sonoro, e, novamente, feliz. Quando recebíamos visitas, ele recepcionava a todos cumprimentando, dizendo “sejam bem vindos”, e derramava-se em gentilezas. Mas “Seu” Inácio tinha um problema. Era quase analfabeto. Tecnicamente, era um analfabeto funcional. Sabia apenas ler o nome das pessoas nas correspondências para poder colocá-las cada qual em seu escaninho. Não adiantava deixar bilhetes para ele. “Tava sem meu ócuros” logo dizia, esquivando-se da leitura. Via as fotos das revistas para dar a impressão, a quem passasse, que ele estava absorto na leitura. Alguns moradores começaram a se incomodar: “Não dá para convidar visitas formais, pois com essa recepção, cai o nível.” “Ele fala com meus convidados, sem a menor condição de manter um diálogo, ele fala: os pobrema das pessoa o Lula tá resorvendo”. “Um prédio como o nosso não pode continuar com uma recepção tão inculta. Merecemos alguém mais capacitado”. De tanto reclamarem, chiarem, resmungarem, os “cultos e inteligentes” moradores do meu prédio foram em peso a uma reunião do condomínio e exigiram a troca do “Seu” Inácio por alguém mais preparado. Hoje cheguei muito cansado do meu trabalho, estressado pelo número de reuniões intermináveis. Ao passar pela recepção, um novo porteiro. Um recepcionista. Fez administração em uma dessas faculdades sobreviventes. As conversas com ele são cultas. Pequenas, mas cultas. Sérias, sisudas, mas cultas. Ajuda? Não. Essa não é a função dele. Ele é o recepcionista. Fala muito bem. Ontem eu o ouvi dizer: “Há vários problemas nesse prédio. Falta manutenção.” Diagnóstico perfeito e dito de forma perfeita. Triste e carrancudamente perfeito. “Seu” Inácio, pelamordedeus, dá procê vortá correno? Marcos Meier é Mestre em Educação, Psicólogo e Palestrante. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br
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