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20/11/07 Todo mundo no chão
Da Redação - 20/11/2007

 

Fui abastecer em um posto de gasolina perto de minha casa, aqui em Curitiba. Eram 9h45 da noite. A menina, frentista, perguntou-me: quer que eu verifique o óleo? Respondi que não, que já tinha verificado essa semana. De repente, um rapaz de uns 17 anos de idade, arma em punho, já foi gritando: “pro chão todo mundo. Todo mundo pro chão!” Acho que levei alguns segundos olhando para a arma, para o sujeito autoritário, para a frentista desesperada, até que me dei conta que “todo mundo” incluía a mim mesmo.Deitei de braços abertos para que o ladrão não pensasse que eu pudesse reagir. Afinal, quem tem 2m de altura pode assustar sem a menor intenção de fazê-lo. Fiquei deitado. Inerte. Somente a sensação do chão frio em minha barriga e um gelo nas minhas costas como se a morte pudesse me encontrar por ali.
Outro garoto gritava com clientes desesperados e inertes. “Pro chão. Todo mundo pro chão”. Outra arma em punho.
Em seguida senti algo gelado em minha nuca, provavelmente o cano do revolver, e uma mão que rapidamente entrava em meus bolsos e retirava tudo. Foi-se o celular. Foram-se algumas notas de dinheiro. Foi-se minha certeza de continuar vivo. Foi-se minha paz. Foi-se minha fé na humanidade. Foi-se a imbecilidade ingênua e passiva de acreditar em “votem em mim que vou investir em segurança”. Naquele momento uma pequena reação minha e este texto você não estaria lendo. Uma pequena reclamação ou olhar de minha parte e um gatilho poderia ser puxado. 1cm para trás. Um estampido, e o silêncio. Poderia. Alguns perdem rolex. Eu perdi alguns reais e minha ingenuidade. A ingenuidade de pensar que São Paulo e Rio de Janeiro são locais muito perigosos.  Muitas outras cidades são. Curitiba também é.“Vamo pro caixa, vamo pro caixa”. E foram. Continuei deitado.
Tiros. Tiros e mais tiros. Alguém revidou. A frentista deitada perto de mim chorava. Convulsivamente chorava.
Ninguém ousava levantar.
Rezei. “Senhor, se possível, que não seja agora”.
Um sujeito cai morto em minha frente. Pensei que era o cara que havia revidado e agora eu seria o próximo, já que estava há três passos de distância.  Nesse momento, fechei os olhos. Não queria ver como eu iria morrer, não queria olhar para o sujeito como minha última lembrança. Lembrei apenas dos meus filhos e do tempo que poderia ter brincado mais. Lembrei de minha esposa e dos carinhos que deixei de dar. Dos amigos e das palavras de conforto que nunca foram ditas.
Eu não deveria estar nesse posto de gasolina. Queria acordar em minha cama e chorar de alegria por ter sido um sonho. Não era. O morto estava ali em minha frente. Mais tarde soube que o morto era um ladrão. Era. Havia outro ladrão que também morrera ali mesmo. Uns “duzentos anos” depois, uma voz feminina me chamava. “Acabou, pode levantar. Já se foram”. Era a frentista, já recomposta. Eu não queria levantar. Dois metros de homem são alvo fácil. Não acreditava que eu ainda teria mais algum tempo de vida. Mas agora, sei que tenho mais tempo, mas não tenho a menor idéia de quanto tempo será. Certa vez perguntaram a Martinho Lutero o que ele faria se o mundo acabasse naquele dia. A resposta dele: “exatamente o que estou fazendo. Faço tudo como se fosse a última vez.” Quero um dia poder crescer a esse ponto. Evoluir até que eu possa dizer: estou preparado todos os dias. Eu não estava.
“Moço, já acabou, pode levantar.”
Levantei e fui embora.
Tenho vontade de entrar com um processo na Justiça contra o Estado que deveria zelar pela segurança de seus cidadãos. Tenho vontade de entrar com um processo contra todas as indústrias de armas. Como sou ingênuo. Continuo sendo. Pelo menos já sei o que, além do “Senhor”, me ajudou a me manter vivo: não reagi. Entretanto, é exatamente nossa não reação, nossa inércia como cidadãos que não reclamam seus direitos, que não exigem segurança e que não cobram planos concretos das autoridades, que nos mantém reféns da violência.
Está na hora de reagir.
Não contra os assaltantes de arma na mão.
Contra nossa ingenuidade. Contra nossa passividade. Contra falsas promessas.
A outra opção é continuarmos deitados. Todo mundo no chão.

Marcos Meier é Mestre em Educação, Psicólogo e Palestrante. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br




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