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24/09/07 Superego nacional
Da Redação - 24/09/2007
Acabei de saber que estou pagando pensão para uma mulher que nem conheço. Só não fico ainda mais furioso porque sei que não estou sozinho. Você também paga. Também já colaborei com o preenchimento de uma cueca com dólares. Provavelmente alguns centavos ali foram tirados do meu salário por meio dos impostos que pago em quase tudo que compro. Novamente, agradeço por você não me deixar sozinho. Há alguns centavos seus também. Nós também estamos contribuindo com malas. Malas de dinheiro desviado de contas públicas, ou seja, de contas suas e minhas. Além de contribuir com a manutenção de outros “malas” que corrompem, subornam, desviam, roubam e, descaradamente, enriquecem de uma hora para outra. Um grande equívoco é afirmar que nas próximas eleições eles serão punidos porque a gente não vai votar neles. Há anos eles se preservam no poder. Vamos continuar votando neles. Sem saber, ingenuamente, inocentemente, fantasiosamente acreditando que dessa vez a gente vai votar certo. Precisamos urgentemente de uma outra alternativa, precisamos de instituições, mecanismos, procedimentos de controle, de fiscalização e, principalmente, de punição mais eficientes. Fazendo uma analogia com a psique humana, as pessoas maduras emocionalmente possuem adequadamente construída uma instância psíquica denominada pela psicanálise de “superego”. É o superego que as induz a serem honestas, éticas e solidárias. É o superego que nos diz que estamos errados, que ativa nosso sentimento de culpa, aponta para nossos possíveis erros... e não dos deixa com a consciência tranqüila quando erramos. Assim, um ser humano evoluído, maduro, sábio, ético e possuidor de inteligência emocional, construiu ao longo de seu crescimento um superego capaz de contribuir para esse perfil. Não é obra do acaso. É trabalho incessante de uma família que ensinou-lhe valores, princípios, que investiu tempo em diálogo, reflexões, broncas, críticas, elogios, incentivos e punições quando necessárias. Nada escapava dos olhos atentos dos pais, dos irmãos e dos adultos que interagiam com ele. Houve interação de qualidade por muito tempo. Como podemos ter líderes no nosso país que possam ser éticos, honestos e realmente voltados ao bem comum e não apenas à satisfação pessoal e ao enriquecimento ilícito? Tendo uma instância equivalente ao superego. Precisamos de mecanismos e de instituições de controle, de fiscalização, de punição que sejam independentes, rápidos e não estejam vinculados de nenhuma forma aos interesses do poder ou a pessoas que possam estar no poder. Independência de ação. O Brasil precisa de um “superego” institucional. As instituições que temos hoje, como a Polícia Federal, as Corregedorias, o Supremo Tribunal Federal, entre outras, são necessárias, porém insuficientes, como já pudemos perceber. Não adianta esperarmos pelo príncipe encantado que, de cavalo branco, virá resgatar as pobres vítimas da corrupção. Temos que colocar os pés no chão e criar tais mecanismos, criar essas instituições independentes que possam dar ao nosso povo a certeza que os impostos que pagam estão indo para onde deveriam ir. A pergunta deveria mudar. Ao invés de perguntarmos “de onde veio esse dinheiro?” e obtermos respostas esdrúxulas, deveríamos perguntar “para onde deveria ter ido esse dinheiro?” Com toda certeza saberíamos opinar. Precisamos fortalecer, por exemplo, a Polícia Federal, que por meio de operações inteligentes coloca vários na cadeia e depois tem que, vergonhosa e passivamente, observar o esvaziamento da cadeia, pois os mecanismos de proteção aos ladrões são mais eficazes que aqueles que os mantém presos. Vou fazer a minha parte. Vou começar a exigir, ao invés de promessas, propostas coerentes de construção desses mecanismos e dessas instituições de controle. E parar de sonhar com a transformação de sapos barbudos em príncipes reais. Espero que também dessa vez estejamos juntos. Marcos Meier é Mestre em Educação, Psicólogo e palestrante. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br |